Batman, Homem-Aranha, Superman, X-Men e Vingadores podem ser a porta de entrada de muita gente para os quadrinhos. Mas basta sair um pouco dos universos mais conhecidos para perceber como esse mundo é muito maior.
Há uma HQ sobre três criaturas de aparência quase infantil que acabam no meio de uma enorme aventura de fantasia. Outra acompanha dois amantes tentando criar a filha enquanto seus povos travam uma guerra espacial. Em outra, um homem acorda preso em um gigantesco corpo de pedra — e essa nem é a parte mais estranha da história.
Terror, ficção científica, fantasia, drama, humor, histórias de guerra e até versões completamente diferentes do conceito de super-herói aparecem quando olhamos além dos títulos mais famosos de Marvel e DC.
E você não precisa conhecer décadas de cronologia para começar.
Neste guia, reunimos obras de diferentes épocas e estilos para ajudar você a encontrar uma HQ que realmente combine com aquilo que gosta de ler.
Antes da lista: o que estamos chamando de HQ independente?
Existe uma pequena complicação nessa definição.
Nem todo quadrinho que está fora dos universos tradicionais de Marvel e DC é necessariamente uma publicação independente.
Existem obras publicadas por editoras menores, títulos lançados pelos próprios autores, projetos nos quais os criadores mantêm maior controle sobre seus personagens e também histórias publicadas por selos pertencentes a grandes editoras, mas que não fazem parte dos universos tradicionais de super-heróis.
Por isso, nossa seleção não tenta colocar todas essas obras dentro da mesma caixa.
A proposta é mais simples: mostrar que existe muita coisa interessante para ler além dos universos tradicionais de super-heróis.
Agora fica mais fácil escolher por onde começar.
Se você gosta de fantasia

Bone — Jeff Smith
Comece por esta se você gosta de: fantasia, aventura e humor.
Não deixe o desenho aparentemente simples enganar você.
Quando os primos Fone Bone, Phoney Bone e Smiley Bone são expulsos de Boneville, eles acabam separados e perdidos em um vale desconhecido.
O começo pode parecer uma aventura bastante leve. Há criaturas engraçadas, situações absurdas e muito humor.
Só que o mundo vai ficando maior.
Segredos começam a aparecer, antigas ameaças entram em cena e aquela pequena aventura gradualmente se transforma em uma história de fantasia muito mais ambiciosa.
É justamente esse contraste que torna Bone tão interessante.
Jeff Smith consegue colocar personagens cartunescos dentro de um universo que, aos poucos, ganha guerras, perigos e mistérios sem abandonar completamente o humor do começo.
Por que vale conhecer?
Porque Bone é uma ótima demonstração de como aparência e conteúdo podem apontar para direções completamente diferentes.
Quem olha rapidamente para os personagens pode imaginar uma história exclusivamente infantil. Quem continua lendo encontra uma aventura que cresce junto com seus protagonistas.

Monstress — Marjorie Liu e Sana Takeda
Comece por esta se você gosta de: fantasia sombria, mundos complexos e histórias de guerra.
Se Bone começa de maneira acolhedora, Monstress praticamente faz o contrário.
A história acompanha Maika Halfwolf, uma jovem que vive em um mundo marcado por guerras, preconceitos e disputas entre diferentes povos.
E existe algo ainda mais preocupante: Maika possui uma ligação misteriosa com uma entidade extremamente poderosa.
Descobrir o que está acontecendo com ela significa também descobrir segredos sobre o próprio mundo em que vive.
Mas uma das primeiras coisas que provavelmente chamará sua atenção nem será a história.
Será a arte.
Sana Takeda constrói páginas extremamente detalhadas, com criaturas, roupas, construções e cenários que ajudam a dar identidade própria àquele universo.
O que torna Monstress diferente?
A obra não entrega todas as respostas imediatamente.
Existem povos, relações políticas, conflitos antigos e regras que precisam ser compreendidos conforme a leitura avança.
Por isso, é uma opção especialmente interessante para quem gosta de entrar em um universo grande e ir descobrindo suas peças aos poucos.
Se você prefere ficção científica

Saga — Brian K. Vaughan e Fiona Staples
Comece por esta se você gosta de: ficção científica, fantasia e personagens complicados.
Imagine duas pessoas de lados opostos de uma guerra se apaixonando.
Agora imagine que elas tiveram uma filha.
Esse é o ponto de partida de Saga.
Alana e Marko pertencem a povos envolvidos em um conflito gigantesco, mas decidem formar uma família. Isso faz com que os três precisem fugir enquanto diferentes forças tentam encontrá-los.
A escala da história pode ser enorme, com planetas, criaturas estranhas e conflitos interplanetários, mas o coração da HQ é surpreendentemente íntimo.
É uma história sobre uma família tentando permanecer junta.
Por que isso funciona tão bem?
Porque os personagens não parecem existir apenas para movimentar a trama.
Eles erram, discutem, mudam e precisam lidar com consequências.
O resultado é uma ficção científica que consegue ser gigantesca e pessoal ao mesmo tempo.

Paper Girls — Brian K. Vaughan e Cliff Chiang
Comece por esta se você gosta de: viagem no tempo, mistério e aventuras juvenis.
Quatro garotas estão entregando jornais durante a madrugada.
Até aí, nada muito estranho.
Então começam a acontecer coisas que definitivamente não deveriam estar acontecendo.
Paper Girls parte de uma pequena cidade dos anos 1980 e rapidamente entra em uma história envolvendo acontecimentos inexplicáveis, tecnologia, conflitos e viagens no tempo.
Mas existe um detalhe importante.
Por trás de toda a ficção científica, acompanhamos quatro adolescentes tentando entender não apenas o que está acontecendo ao redor delas, mas também quem estão se tornando.
Não é apenas nostalgia dos anos 80
A ambientação é importante, mas reduzir Paper Girls à nostalgia seria deixar de lado boa parte de seu charme.
A viagem no tempo também permite que a história faça perguntas bastante pessoais.
O que você pensaria se pudesse conhecer uma versão futura de si mesmo?
E se sua vida não tivesse seguido o caminho que imaginava?
É quando essas perguntas aparecem que Paper Girls se torna mais do que apenas uma aventura temporal.
Para quem gosta de terror e histórias sombrias

Hellboy — Mike Mignola
Comece por esta se você gosta de: monstros, folclore, investigação paranormal e mitologia.
Um demônio pode trabalhar investigando acontecimentos sobrenaturais?
No universo de Hellboy, pode.
E essa descrição ainda explica muito pouco sobre o que torna o personagem interessante.
Criado por Mike Mignola, Hellboy enfrenta criaturas e acontecimentos ligados a diferentes mitologias, lendas e histórias de horror.
O próprio protagonista, porém, também faz parte desse mistério.
Sua origem está conectada às forças sobrenaturais que ele frequentemente precisa enfrentar.
O visual faz parte da experiência
É difícil falar de Hellboy sem falar da arte de Mike Mignola.
Sombras fortes, formas marcantes e cenários que parecem carregar alguma história escondida ajudam a criar uma atmosfera imediatamente reconhecível.
Para quem gosta de histórias sobre lendas antigas, monstros e investigações sobrenaturais, é uma excelente porta de entrada.

The Crow — James O’Barr
Comece por esta se você gosta de: histórias góticas, vingança e narrativas melancólicas.
Antes de O Corvo se tornar conhecido pelo cinema, Eric Draven já havia retornado dos mortos nos quadrinhos.
Mas seria simplificar demais a obra descrevê-la apenas como uma história de vingança.
Eric retorna depois de uma tragédia e passa a perseguir os responsáveis pelo que aconteceu com ele e sua amada.
Existe violência, mas também existe muita dor.
Uma HQ construída em torno do luto
É isso que separa The Crow de uma simples história sobre alguém voltando dos mortos para eliminar criminosos.
O passado acompanha Eric constantemente.
A vingança movimenta a narrativa, enquanto o sentimento de perda dá identidade a ela.
Por isso, quem conhece apenas as adaptações cinematográficas pode encontrar nos quadrinhos uma experiência bastante particular.
Something Is Killing the Children — James Tynion IV e Werther Dell’Edera
Comece por esta se você gosta de: terror, mistério e monstros.
Crianças estão desaparecendo em uma pequena cidade.
As que conseguem voltar contam histórias sobre criaturas assustadoras.
Há apenas um problema: praticamente nenhum adulto acredita nelas.
É nesse cenário que surge Erica Slaughter.
Ela sabe que os monstros existem.
E sabe como enfrentá-los.
Essa premissa poderia resultar apenas em uma sequência de caçadas, mas a HQ constrói um universo maior ao redor de Erica e das criaturas.
O medo começa com uma ideia simples
Existe algo especialmente inquietante na possibilidade de uma criança enxergar um perigo que os adultos simplesmente não conseguem perceber.
A história usa essa diferença para construir tensão antes mesmo de mostrar tudo que está escondido naquele mundo.
É uma boa escolha para quem quer conhecer o terror contemporâneo nos quadrinhos.
Se você gosta de super-heróis, mas quer algo diferente

Spawn — Todd McFarlane
Comece por esta se você gosta de: anti-heróis, ação e horror sobrenatural.
Al Simmons morreu.
O problema é que sua história não terminou.
Depois de fazer um acordo, ele retorna à Terra como Spawn e descobre rapidamente que voltar dos mortos não significa recuperar a vida que possuía antes.
Poderes sobrenaturais, demônios, violência e conspirações passam a fazer parte de sua existência.
Mas existe algo particularmente interessante em Spawn: sua história também está ligada a um momento importante da indústria americana de quadrinhos.
Um herói fora de Marvel e DC
Todd McFarlane esteve entre os artistas que fundaram a Image Comics no início dos anos 1990.
Spawn se tornou um dos títulos mais reconhecíveis ligados à editora e mostrou a enorme atenção que personagens pertencentes a criadores poderiam alcançar fora dos universos tradicionais de Marvel e DC.
Para quem está acostumado com super-heróis e quer começar a explorar outras editoras sem abandonar completamente esse tipo de história, Spawn é uma escolha natural.

Black Hammer — Jeff Lemire e Dean Ormston
Comece por esta se você gosta de: super-heróis, mistério e histórias sobre legado.
Imagine um grupo de heróis que salvou o mundo.
Agora esqueça a comemoração.
Depois do grande acontecimento, esses personagens acabam presos em uma pequena comunidade rural, aparentemente incapazes de retornar à vida que possuíam.
É a partir daí que Black Hammer começa a brincar com ideias familiares para qualquer leitor de super-heróis.
Existem arquétipos reconhecíveis, referências ao gênero e personagens que lembram diferentes épocas dos quadrinhos.
Mas a pergunta principal não é apenas “quem será o próximo vilão?”.
O que acontece com o herói depois da aventura?
Essa mudança de perspectiva permite que a história explore identidade, frustração, memória e a vida que cada personagem perdeu.
Black Hammer conhece muito bem as convenções dos super-heróis — e justamente por isso consegue brincar com elas.
Para quem realmente quer sair do convencional
Concrete — Paul Chadwick
Comece por esta se você gosta de: ficção científica com questões humanas.
Um homem acorda e descobre que seu cérebro está dentro de um gigantesco corpo de pedra.
Seria fácil transformar essa premissa em uma história de super-herói.
Concrete decide fazer outra coisa.
Em vez de colocar o protagonista em uma sequência interminável de batalhas, Paul Chadwick explora o que significaria realmente viver naquela situação.
Como as outras pessoas reagiriam?
Como seria realizar atividades comuns?
E o que alguém faria com um corpo capaz de coisas que antes pareciam impossíveis?
Uma premissa absurda tratada com curiosidade
É justamente isso que torna Concrete tão interessante.
A ficção científica funciona como ponto de partida para observar experiências muito mais humanas.

Tank Girl — Alan Martin e Jamie Hewlett
Comece por esta se você gosta de: punk, humor absurdo e caos.
Existem histórias organizadas.
E existe Tank Girl.
A personagem vive em um cenário pós-apocalíptico e protagoniza aventuras marcadas por humor, exagero, violência cartunesca e uma enorme vontade de ignorar regras.
Até a própria estrutura da HQ pode abraçar essa energia caótica.
Não espere uma aventura tradicional
Tank Girl nasceu ligada à cultura alternativa britânica e carrega muito dessa atitude em suas páginas.
Isso significa que talvez não seja a melhor escolha para quem procura uma narrativa convencional e cuidadosamente organizada.
Mas para quem quer justamente algo irreverente, imprevisível e visualmente marcante, essa estranheza faz parte do atrativo.

The Maxx — Sam Kieth
Comece por esta se você gosta de: surrealismo, psicologia e histórias que deixam perguntas no ar.
Quem é Maxx?
Responder a essa pergunta não é tão simples quanto parece.
Em um momento, ele é um homem sem-teto usando uma estranha fantasia roxa.
Em outro, está ligado a um mundo fantástico conhecido como Outback.
A fronteira entre realidade, memória e fantasia começa a ficar cada vez menos clara.
Estranheza com propósito
O visual exagerado pode fazer The Maxx parecer apenas mais uma HQ extravagante dos anos 1990.
Mas existe muito mais acontecendo por baixo dessa aparência.
A narrativa trabalha com trauma, percepção e identidade, frequentemente usando o surrealismo para representar conflitos internos.
É uma leitura para quem não se incomoda em terminar uma edição ainda tentando organizar o que acabou de acontecer.
Bônus: duas obras que fogem da definição tradicional de “independente”
Existem ainda excelentes quadrinhos fora dos universos tradicionais de super-heróis que não cabem perfeitamente na definição de HQ independente.
Dois deles estavam justamente entre as obras que queríamos apresentar.
Y: The Last Man — Brian K. Vaughan e Pia Guerra
Publicada pela Vertigo, selo ligado à DC, Y: The Last Man começa com um acontecimento impossível de ignorar: um evento repentino mata praticamente todos os mamíferos com cromossomo Y.
Entre as exceções estão Yorick Brown e seu macaco Ampersand.
A partir daí, a série acompanha uma longa jornada em um mundo completamente transformado.
A premissa de ficção científica abre espaço para discutir relações sociais, política, sobrevivência e identidade.
Não é uma HQ independente no mesmo sentido de Bone, por exemplo, mas representa perfeitamente o tipo de leitura que alguém procurando algo além dos super-heróis tradicionais pode querer descobrir.
The Nice House on the Lake — James Tynion IV e Álvaro Martínez Bueno
Um grupo de pessoas recebe um convite para passar alguns dias em uma belíssima casa à beira de um lago.
O anfitrião é Walter, conhecido de todos.
Parece o começo de umas férias excelentes.
Não demora muito para ficar claro que existe alguma coisa profundamente errada.
Quanto menos você souber antes de começar The Nice House on the Lake, melhor.
Publicada pela DC Black Label, a obra mistura mistério, ficção científica e horror psicológico enquanto revela lentamente por que aquelas pessoas foram reunidas.
Não entra na definição tradicional de quadrinho independente, mas merece aparecer aqui justamente porque mostra como existem histórias muito diferentes mesmo dentro dos selos associados às grandes editoras.
Por qual HQ começar?
Depois de tantas opções, talvez essa seja a pergunta mais difícil.
Não existe uma única resposta, porque depende muito mais do tipo de história que prende sua atenção.
Se você quer fantasia e aventura, Bone oferece uma entrada bastante acessível.
Para ficção científica com personagens e relações no centro da história, Saga pode chamar mais atenção.
Se procura terror, Something Is Killing the Children apresenta uma premissa fácil de entender e um universo que cresce conforme a leitura avança.
Quem ainda quer permanecer próximo dos super-heróis pode começar por Spawn ou Black Hammer.
Já quem realmente deseja encontrar algo distante das aventuras tradicionais pode experimentar Concrete, Love and Rockets, Tank Girl ou The Maxx.
O importante é perceber que não existe apenas uma porta de entrada para os quadrinhos.
Existe vida — e muita — além de Marvel e DC
É fácil associar HQs aos personagens que dominam cinemas, séries, brinquedos e videogames.
Mas os quadrinhos nunca se limitaram a isso.
Às vezes, tudo começa com três primos perdidos em um vale.
Em outra história, com uma família fugindo de uma guerra entre planetas.
Pode começar com um investigador paranormal vindo do inferno, um homem preso em um corpo de pedra ou um grupo de antigos super-heróis vivendo em uma pequena cidade.
É justamente essa variedade que torna explorar novas HQs tão divertido.
Você não precisa abandonar Batman, Homem-Aranha ou os X-Men.
Só precisa caminhar um pouco além deles.
Talvez sua próxima HQ favorita esteja justamente em uma prateleira que você ainda não decidiu explorar.
E você: qual dessas histórias escolheria para começar?
