Existe uma pergunta que os quadrinhos adoram fazer:
E se?
E se Peter Parker não fosse o Aranha daquela realidade?
E se Gwen Stacy estivesse atrás da máscara?
E se os maiores heróis que conhecemos fossem completamente diferentes em outro universo?
Agora leve essa brincadeira ainda mais longe.
E se Superman pudesse encontrar o Homem-Aranha? E se Batman e Wolverine fossem misturados em um único personagem? E se Liga da Justiça e Vingadores descobrissem que existem outros heróis protegendo outro universo?
Parece conversa de dois fãs imaginando confrontos impossíveis.
Só que algumas dessas ideias realmente chegaram às páginas.
Marvel e DC passaram décadas criando realidades alternativas, destruindo linhas temporais, reinventando personagens e, em ocasiões muito especiais, atravessando até a barreira que separava uma editora da outra.
Para entender como tudo isso funciona, primeiro precisamos entrar no lugar em que praticamente qualquer possibilidade pode existir.
O multiverso.
Multiverso não significa simplesmente “outro universo”
Antes de atravessar a primeira realidade, vale resolver uma confusão comum.
Quando falamos no multiverso Marvel, não estamos falando de uma única realidade alternativa.
O multiverso é justamente o conjunto de diferentes universos e linhas de realidade que podem coexistir dentro dessa estrutura narrativa.
Por isso encontramos identificações como Terra-616, Terra-1610 e Terra-65.
Elas não são “multiversos diferentes”.
São realidades que fazem parte de algo muito maior.
Isso permite aos roteiristas experimentar uma pergunta perigosa sem necessariamente desmontar décadas da continuidade principal:
O que aconteceria se mudássemos uma peça importante dessa história?
Às vezes a resposta cria um novo Homem-Aranha.
Em outras, transforma praticamente todo mundo em zumbi.

Do lado da Marvel, tudo começa pela realidade que virou referência
Terra-616: por que o universo “normal” também precisa de número?
Homem-Aranha, X-Men, Vingadores, Quarteto Fantástico e grande parte das versões tradicionais dos personagens da Marvel estão associados à Terra-616.
É a realidade usada como uma das principais referências quando começamos a comparar versões alternativas.
E o número tem uma função interessante.
Quando existem incontáveis realidades, até aquela que acompanhamos normalmente deixa de ser simplesmente “o universo”.
Ela se torna um universo entre muitos.
Isso significa que pode existir outro Peter Parker.
Outra Nova York.
Outro Tony Stark.
Ou talvez uma realidade em que alguns desses personagens sequer existam da maneira que conhecemos.
É quando atravessamos para universos como o Ultimate que essa diferença começa a ficar bem mais visível.

Ultimate: quando a Marvel decidiu recomeçar sem apagar o original
Imagine querer apresentar Homem-Aranha, X-Men e outros personagens para uma nova geração sem exigir que o leitor conheça décadas de histórias anteriores.
Uma solução seria apagar tudo e começar novamente.
A Marvel encontrou outro caminho.
Em vez de substituir completamente sua continuidade tradicional, criou o Universo Ultimate, associado à Terra-1610.
Ali, personagens conhecidos poderiam ter origens e relações reinterpretadas para um público mais moderno.
Ultimate Spider-Man, iniciado em 2000, tornou-se uma das principais portas de entrada para essa proposta.
Mas talvez uma das maiores contribuições dessa realidade tenha aparecido depois.
Miles Morales.
Miles mostrou algo particularmente poderoso sobre universos alternativos: eles não precisam existir apenas para mostrar uma versão diferente de um personagem conhecido.
Também podem criar personagens que conquistam identidade própria.
Ele começou ligado ao universo Ultimate e, com o passar do tempo, tornou-se um personagem reconhecido muito além daquela realidade.
O multiverso começava a mostrar que uma alternativa podia deixar de parecer apenas alternativa.

Terra-65: e se Gwen Stacy recebesse a picada?
Gwen Stacy ocupa um lugar importante na história de Peter Parker.
Mas a Terra-65 decidiu mexer justamente nessa relação.
Nessa realidade, Gwen é quem recebe poderes de aranha.
Peter segue outro caminho.
A mudança parece simples, mas altera completamente a dinâmica dos personagens.
Apresentada em Edge of Spider-Verse #2, em 2014, essa versão de Gwen ganhou espaço próprio e passou a ser conhecida por muitos leitores como Spider-Gwen, além de assumir o nome Ghost-Spider em histórias posteriores.
O interessante não é apenas trocar quem usa a máscara.
É perceber como uma única alteração reorganiza relacionamentos, conflitos e destinos que pareciam familiares.
Essa é praticamente a essência do multiverso.
Mude uma peça.
Depois observe todas as outras começarem a cair em lugares diferentes.

Marvel Zombies: quando salvar o mundo deixou de ser prioridade
Agora vamos fazer a mesma pergunta de um jeito muito menos agradável.
E se alguns dos seres mais poderosos da Marvel fossem infectados e se transformassem em zumbis?
A Terra-2149 explora justamente esse pesadelo.
Personagens normalmente associados à proteção do planeta passam a representar uma ameaça.
E isso cria uma inversão interessante.
O problema já não é descobrir se os Vingadores conseguirão derrotar o monstro.
Eles podem ser o monstro.
O conceito apareceu ligado a Ultimate Fantastic Four e depois ganhou histórias próprias em Marvel Zombies.
O resultado mistura elementos reconhecíveis do universo Marvel com terror e humor macabro.
É também um bom exemplo do que uma realidade alternativa permite fazer.
Você pode levar uma ideia a extremos que seriam muito mais difíceis de sustentar permanentemente dentro da continuidade principal.
Mas as aranhas multiversais levariam essa liberdade para uma escala ainda maior.
Quando apareceu mais de um Homem-Aranha… e depois muitos deles
O Aranhaverso não é simplesmente uma “Terra”.
Ele funciona a partir da conexão entre diferentes versões do conceito do Homem-Aranha espalhadas por realidades distintas.
Isso permite colocar lado a lado personagens que compartilham alguma essência, mas podem ser completamente diferentes entre si.
Peter Parker.
Miles Morales.
Gwen.
Spider-Man Noir.
E muitas outras variações.
É quase como se os quadrinhos pegassem uma pergunta simples — “o que torna alguém o Homem-Aranha?” — e testassem diferentes respostas.
A ideia acabou ultrapassando as HQs e se tornou conhecida por um público ainda maior através das animações do Aranhaverso.
E se a Marvel utiliza realidades alternativas para experimentar possibilidades, a relação da DC com o multiverso consegue ser ainda mais complicada.
Do outro lado está a DC — e aqui as Terras fazem parte da própria história
A DC possui décadas de personagens, versões, reformulações e continuidades.
Em diferentes momentos, o multiverso serviu não apenas para contar histórias alternativas, mas também para organizar — e às vezes reorganizar — esse enorme passado editorial.
Por isso falar sobre as Terras da DC pode rapidamente virar uma aula de história dos quadrinhos.
Vamos evitar a aula.
É mais divertido visitar alguns desses lugares.

Terra-2: quando o passado não precisa desaparecer
A ideia da Terra-2 ficou historicamente ligada a versões de personagens e heróis associados à Era de Ouro da DC.
Isso ofereceu uma solução bastante engenhosa para um problema que aparece quando personagens existem por décadas.
O que fazer com versões anteriores?
Uma possibilidade é fingir que nunca existiram.
Outra é encontrar um lugar para elas.
O conceito de múltiplas Terras permitiu que diferentes gerações de heróis pudessem coexistir dentro de uma estrutura maior.
Décadas depois, a DC voltaria a reinterpretar a Terra-2, inclusive na série Earth 2, iniciada em 2012.
Mas existe outra Terra que faz algo bem diferente.
Em vez de olhar para versões heroicas do passado, ela olha para nossos heróis e pergunta:
E se fossem o oposto?

Terra-3: reconhecemos os rostos, mas definitivamente não os heróis
Superman inspira esperança.
Agora imagine uma realidade em que sua contraparte usa um conjunto semelhante de poderes para dominar.
Surge Ultraman.
Batman se transforma no sinistro Owlman.
Mulher-Maravilha encontra seu reflexo distorcido em Superwoman.
A Terra-3 trabalha com uma ideia imediatamente compreensível: inverter papéis conhecidos.
É como entrar em uma sala cheia de espelhos e perceber que nenhum reflexo está se comportando como deveria.
Essas versões ajudam a explorar uma pergunta que histórias de super-heróis fazem constantemente:
O poder torna alguém heroico ou são suas escolhas que fazem isso?
Flashpoint levaria essa lógica de escolhas e consequências para outro nível.

Flashpoint: Barry Allen queria salvar uma pessoa e mudou um mundo
Se você pudesse voltar no tempo e impedir a morte de alguém que ama, faria isso?
Barry Allen teve a oportunidade.
Em Flashpoint, publicado em 2011, o Flash altera o passado ao tentar impedir a morte de sua mãe.
Só existe um pequeno problema.
Quando Barry muda aquele acontecimento, ele não recebe de volta simplesmente uma versão mais feliz de sua vida.
Ele encontra um mundo profundamente diferente.
Uma das alterações mais famosas envolve a família Wayne.
Naquela linha temporal, Bruce morreu quando criança.
Thomas Wayne sobreviveu e tornou-se Batman.
Martha Wayne seguiu um caminho ainda mais sombrio.
Aquilo que Barry imaginava ser uma mudança pessoal teve consequências muito maiores.
É uma das ideias mais fascinantes das histórias de viagem no tempo:
Você muda uma única coisa esperando controlar o resultado.
O tempo responde mudando várias outras.
Flashpoint também ficou ligado à transição editorial que levou aos Novos 52, aumentando ainda mais sua importância dentro da história moderna da DC.
Dark Multiverse: e se os piores pesadelos também ganhassem mundos?
Algumas realidades alternativas perguntam como um herói seria se sua vida tomasse outro rumo.
O Dark Multiverse, apresentado em Dark Nights: Metal, parte de algo mais sombrio.
Ali encontramos mundos relacionados a medos, possibilidades instáveis e versões distorcidas de personagens conhecidos.
Foi desse conceito que surgiu um dos exemplos mais reconhecíveis dessa fase:
Batman Que Ri.
A ideia combina elementos de Batman e Coringa em uma versão monstruosa do Cavaleiro das Trevas.
É quase como se o multiverso normal representasse caminhos possíveis enquanto o Dark Multiverse abrisse a porta do quarto onde ficam guardadas as possibilidades que ninguém gostaria de encontrar.
E ainda assim, mesmo essas realidades pertencem à mesma editora.
A próxima barreira parecia muito mais difícil de atravessar.
O logotipo na capa.

1976: Superman encontra o Homem-Aranha
Hoje estamos acostumados a crossovers.
Personagens se encontram constantemente.
Universos cinematográficos transformaram essa expectativa em parte da experiência do público.
Mas imagine ver Superman e Homem-Aranha juntos oficialmente em 1976.
Não eram dois personagens pertencentes à mesma empresa.
Eram representantes das duas gigantes dos super-heróis americanos.
A edição Superman vs. The Amazing Spider-Man colocou os dois frente a frente antes de fazê-los perceber que havia problemas maiores para resolver.
Do lado da DC, Lex Luthor.
Do lado da Marvel, Doutor Octopus.
O encontro estabeleceu uma fórmula que apareceria várias vezes em crossovers posteriores:
primeiro o conflito;
depois o entendimento;
e finalmente a ameaça que obriga os heróis a trabalharem juntos.
Mas o mais interessante talvez nem seja descobrir quem bateu em quem.
A existência daquela HQ mostrou que a parede entre Marvel e DC tinha uma porta.
E ela poderia ser aberta novamente.

X-Men e Novos Titãs: dois grupos jovens e uma ameaça nada pequena
Em 1982, outro encontro colocou Uncanny X-Men e The New Teen Titans na mesma história.
As duas equipes tinham enorme destaque naquele período, e o crossover trouxe nomes importantes dos quadrinhos, com roteiro de Chris Claremont e arte de Walt Simonson.
Mas o encontro não ficou limitado a simplesmente colocar os grupos lado a lado.
A história envolvia Darkseid e a Fênix Negra, conectando elementos importantes dos dois universos.
Era mais uma demonstração de que um crossover poderia funcionar como história, não apenas como desculpa para colocar personagens famosos na mesma capa.
Anos depois, dois heróis urbanos também descobririam que suas cidades tinham vilões suficientes para compartilhar.

Batman encontra Homem-Aranha — e os vilões também se apresentam
Em Batman and Spider-Man, publicado nos anos 1990, temos uma combinação que parece estranhamente natural.
De um lado, Batman.
Do outro, Homem-Aranha.
Do lado dos problemas?
Coringa e Carnificina.
Os dois heróis são bastante diferentes em personalidade e método, mas compartilham algo importante: suas histórias são profundamente ligadas às cidades que protegem e às tragédias que ajudaram a moldá-los.
Colocá-los juntos permitia brincar justamente com essas diferenças.
Só que nada disso prepararia os leitores para aquilo que Marvel e DC fariam em 1996.
Quando Marvel e DC deixaram os leitores entrarem na briga
Imagine abrir uma HQ e encontrar confrontos como:
Superman contra Hulk.
Batman contra Capitão América.
Mulher-Maravilha contra Tempestade.
Wolverine contra Lobo.
Homem-Aranha contra Superboy.
Foi parte da proposta de DC vs. Marvel, uma minissérie publicada em 1996.
E havia um detalhe que transformava algumas dessas batalhas em algo especialmente incomum:
os leitores participaram da decisão de determinados resultados através de votação.
Era praticamente a versão oficial de uma discussão que fãs de quadrinhos fazem há décadas:
“Quem venceria?”
Só que havia um problema ainda maior acontecendo dentro da história.
Os próprios universos estavam entrando em conflito.
E a solução encontrada pelos quadrinhos foi tão estranha que merece uma seção própria.
Porque Marvel e DC não se limitaram a juntar seus personagens.
Elas começaram a misturá-los.
Amalgam: Batman + Wolverine realmente aconteceu
Leia novamente porque não é erro.
Batman.
Mais Wolverine.
O resultado?
Dark Claw.
Durante o projeto Amalgam Comics, elementos das duas editoras foram combinados para criar personagens híbridos.
Superman e Capitão América deram origem ao Super-Soldier.
Mulher-Maravilha e Tempestade foram combinadas em Amazon.
Homem-Aranha e Superboy inspiraram Spider-Boy.
A graça estava justamente em levar a ideia do crossover até uma conclusão absurda.
Não era mais:
“Como seria se esses dois personagens se encontrassem?”
Agora a pergunta era:
“Como seria se eles sempre tivessem sido a mesma pessoa?”
As HQs do Amalgam brincavam com essa ideia como se aqueles personagens possuíssem suas próprias histórias editoriais.
Por um momento, Marvel e DC deixaram de parecer dois universos separados e se transformaram em algo novo.
Mas ainda faltava acontecer um encontro que fãs esperavam havia anos.

Liga da Justiça e Vingadores: quando as duas grandes equipes finalmente se encontraram
Superman já havia encontrado Homem-Aranha.
Batman já havia dividido páginas com personagens Marvel.
As editoras já tinham colocado seus universos para lutar e até misturado seus heróis.
Então restava uma combinação óbvia:
Liga da Justiça + Vingadores.
JLA/Avengers, publicada entre 2003 e 2004, foi escrita por Kurt Busiek e desenhada por George Pérez.
A história coloca as equipes em uma disputa envolvendo artefatos espalhados pelos dois universos antes de ampliar o conflito.
Só que existe algo particularmente divertido quando esses grupos se encontram.
Eles não descobrem apenas outros heróis.
Descobrem outro universo de super-heróis.
Isso permite comparar como cada realidade funciona, como seus personagens enxergam o mundo e até aquilo que consideram normal.
E George Pérez recebeu uma missão nada modesta: colocar uma quantidade enorme de personagens e referências dentro desse encontro.
Para quem conhecia a história das duas editoras, algumas páginas se transformaram quase em um jogo de procurar personagens.
Depois de décadas de realidades alternativas e encontros impossíveis, Marvel e DC tinham demonstrado uma coisa:
A pergunta mais interessante raramente era apenas “quem venceria?”.
Por que gostamos tanto de ver universos diferentes colidindo?
Existe uma diversão óbvia em imaginar Superman contra Hulk.
Ou Batman encontrando Wolverine.
Mas o fascínio pelos multiversos vai além das lutas.
Realidades alternativas mexem em coisas que acreditávamos conhecer.
Sabemos quem é Peter Parker.
Então aparece uma realidade em que Gwen é a Aranha.
Sabemos quem é Batman.
Então encontramos Thomas Wayne usando o capuz.
Conhecemos Superman como herói.
Então aparece uma versão que nos obriga a imaginar o que aconteceria se todo aquele poder estivesse em outras mãos.
O multiverso transforma personagens familiares em experimentos narrativos.
Mude uma decisão.
Troque uma pessoa.
Altere um acontecimento.
Depois observe as consequências.
Os crossovers fazem algo parecido, mas usando universos inteiros.
Quando Superman encontra Homem-Aranha, o interessante não está apenas no confronto.
Está em observar personagens construídos sob regras editoriais diferentes tentando existir dentro da mesma história.
É aí que aquilo que parecia apenas uma brincadeira de fã pode revelar algo sobre os próprios personagens.
No fim, tudo volta para duas palavras
Depois de tantas Terras, linhas temporais, versões alternativas, universos sombrios e encontros entre editoras, poderíamos imaginar que o multiverso precisa de uma explicação extremamente complicada.
Talvez não.
No fundo, tudo começa com duas palavras:
E se?
E se Gwen Stacy fosse a Aranha?
E se Barry Allen pudesse salvar sua mãe?
E se os heróis se transformassem em zumbis?
E se Superman encontrasse Homem-Aranha?
E se Batman fosse misturado com Wolverine?
Algumas dessas perguntas renderam uma única história.
Outras abriram portas para universos inteiros.
E talvez essa seja justamente a melhor parte dos multiversos: eles transformam aquilo que conhecemos em ponto de partida, não em limite.
Sempre existe outra escolha que poderia ter sido feita.
Outro personagem que poderia ter usado a máscara.
Outra Terra onde tudo aconteceu de maneira diferente.
E enquanto os quadrinhos continuarem perguntando “E se?”, sempre poderá existir uma nova realidade esperando do outro lado da página.
